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Vivência: Liberando Tensões do corpo e da mente

Postado em: Sem categoria | Autor: Débora Quinaud

“A impessoalidade da vida no mundo ocidental chegou a tal ponto que, enfim, produzimos uma raça de intocáveis. Tornamo-nos estranhos uns aos outros, não só evitando  todas as formas de contato físico “desnecessário” , como ainda precavendo-nos contra as mesmas;figuras anônimas num cenário atulhado, pessoas sem rosto, solitárias e temerosas da intimidade. Estamos todos diminuídos na mesma extensão em que isto nos acontece. Devido ao fato de sermos intocáveis, não conseguimos criar uma sociedade em que as pessoas se toquem em mais sentidos do que no físico. Diante de seres inautênticos como nós, vestidos com a imagem do que deveríamos ser segundo os outros, não surpreende que continuemos inseguros quanto a quem somos de fato.”

(Ashley Montagu, Tocar: O significado humano da pele)

Olá queridos visitantes!

Venho divulgar  um pouco do meu trabalho fora do consultório. Trabalhar com público e grupos sempre foi algo que me atraiu muito e quando surgiu a oportunidade, vi uma grande chance de oferecer às pessoas em seus ambientes de trabalho um momento de  saída do piloto automático e reconexão consigo mesmos. Esta foi a proposta da Vivência Liberando Tensões do Corpo e da Mente, realizada em setembro na empresa Audaces, em Florianópolis, em virtude da SIPAT-semana interna de prevenção de acidentes de trabalho

                           Cartaz Vivência Audaces

Estamos sendo constantemente imersos em informações de como tirar o máximo de nossa capacidade intelectual, técnicas para sermos mais produtivos, como ter uma vida melhor dentre tantas outras coisas. Porém poucas vezes percebemos o que acontece com nosso corpo enquanto somos bombardeados por todos estes estímulos, para a partir daí termos discernimento do que nos atrai e o que não temos interesse. Mantemos tanto nossa mente saturada de conteúdos, voltadas para tudo que vem de fora, fazendo com que não tenhamos sequer noção do que se passa conosco, quanto indivíduos providos de um corpo senciente.

Sidarta Gautama (também, conhecido como Buda) nos ensinou á cerca de 2000 anos que o segredo para nossa libertação estar em nos tornarmos conscientes da sabedoria  refletida através dos nossos corpos. Observando as sensações do nosso corpo quando exposto a qualquer estimulo, inclusive o que nós próprios causarmos a ele como nossos pensamentos. Somos seres em posse de um sistema de sensações bastante profundo e complexo e estas sensações são responsáveis  por nossas escolhas inconscientes.

O tempo todo, todas partes de nossos corpos, cada fibra do nosso ser, esta experimentando alguma sensação. Porém a nossa mente, embotada, entorpecida por um mundo de conceitos, julgamentos, ideologias, medos, culpas,  não consegue perceber a sutileza da gama de movimentos, sensações e informações que acontecem em nosso universo interior.  Não há acuidade por sua parte, consegue quiçá perceber estímulos mais grosseiros como dores ou prazeres muito intensos. Metaforicamente, nossa mente reflete a necessidade de aguçadores de sabor nos nossos alimentos. Não são eles que precisam ter o sabor aguçado, sim nossa mente que precisa  ser treinada para verdadeiramente experienciar os estímulos que nossos sentidos captam. Estamos tão desconectados do presente, das sensações que nosso maravilhoso corpo pode captar e nos informar sobre nós mesmos… Não estamos conseguindo perceber a intensidade das coisas em si, seus sabores, texturas, cores, dimensões.

Ao invés de afiarmos nossa mente, usamos toda sorte de meios  para tentar fazer com que consigamos captar alguma das milhares de sensações que estão ali o tempo todo a nossa disposição. E a mente cada vez mais se torna grosseira e densa. E tensa.

Assim sendo, partindo desse pressuposto, propus algumas dinâmicas  individuais com objetos,  dinâmica em dupla, exercícios físicos, respiratórios, todos voltados para o sentido do tato,  para que durante aquele instantes os participantes se permitissem a se perceberem nos limites do seus corpos e voltassem a contatar uma sabedoria esquecida.

 

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O toque foi a tônica de todo o trabalho. O contato com os objetos em si, tocar o outro com objetos, depois com as próprias mãos e por fim, tocarem-se e se perceberem, conhecendo sua  própria estrutura, textura, suas respostas aos estímulos, suas sensações . Busquei com isso além de tentar criar uma experiência de auto-consciência, estender a percepção de que, uma vez que nos “sentimos” verdadeiramente,quando nos permitirmos a nos percebermos integralmente partindo das sensações (friso, não sentimentos),  inexoravelmente a gentileza e o desenvolvimento de uma comunicação verdadeira, amorosa e genuína com o próximo acontece.

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(…)Para se comunicar o mundo ocidental terminou por apoiar-se maciçamente nos “sentidos de distância”, visão e audição, quanto aos “sentidos de proximidade” paladar, olfato e tato,a grande parte proscreveu o último.Em razão de nossa progressiva sofisticação e falta de envolvimento recíproco, passamos exageradamente a comunicação verbal(…) A linguagem dos sentidos, na qual podemos ser todos socializados, é capaz de ampliar nossa valorização do outro e do mundo em que vivemos, e de aprofundar nossa compreensão em relação a eles. Tocar é a principal dessas outra linguagens. As comunicações que transmitimos por meio do toque constituem o mais poderoso meio de criar relacionamentos humanos, como fundamento da experiência”. (A.M, op. cit)

Foi  realmente maravilhoso e gratificante guiar os grupos por esta experiência, ver suas reações, a mudança da feição de alguns, acompanhar os momentos de entrega e descontração. Momentos estes que muito em breve serão repetidos com novos grupos!Agradeço enormemente a oportunidade e a confiança  no meu trabalho.

Forte abraço a todos e voltem sempre!

Gratidão,

Débora

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Comentários
  • Comentário de Davi — 15/10/2014 — 0:08

    Muito legal, Débora. Tenho acompanhado teu trabalho, quando posso, e queria te dizer que você está de parabéns. Essa linha de pensamento realmente é rara nos dias de hoje, onde só queremos entupir nosso cérebro com informações inúteis e vazias ao longo de um triste cotidiano cada vez mais comum. Deixamos passar despercebido diante dos nossos olhos essas interações, não só entre as pessoas mas também com a natureza que nos circunda.
    Mais uma vez, parabéns.

  • Comentário de Sarah — 15/10/2014 — 1:35

    A vivência é uma experiência motivadora, em especial por ser ministrada por alguém tão sensível! Nos lembra que muitas vezes, por motivos diversos, negligenciamos a nós mesmos ou ainda as nossas relações com os outro. Esta prática nos encoraja a olharmos para nós mesmos e para nossos colegas mais atentamente!

  • Comentário de Marlon — 22/10/2014 — 13:50

    Bem interessante a abordagem dos sentidos através dessa classificação de “sentidos de distância” e “sentidos de proximidade”. Nunca havia parado pra pensar nisso. Muitas vezes não há somente um desiquilíbrio na apropriação de determinados sentidos, mas também alguns sentidos muito utilizados – visual – são treinados sob um único aspecto ou propósito, limitando o pleno potencial do sentido como ferramenta experiencial. Suponho que seja um condicionamento da mente buscando simplificar, conceituar ou decodificar aquilo que recebe.

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