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Vícios e compulsões – O que realmente representam sob uma ótica transcendente

Postado em: Sem categoria | Autor: Débora Quinaud

Vicio existe em todo lugar. Todos nós já sentimos nos nossos corpos algum tipo do vicio- seja em um comportamento ou em alguma substância- ou conhecemos alguém com problemas relacionados. Logo, é um assunto que precisa ser refletido com  muito carinho por todos nós. Os  apontamentos do médico canadense Gabor Matté e  Mary O’ Malley, nos quais me embaso para uma análise mais humanizada deste tema  são muito pertinentes e trazem  uma perspectiva mais empoderadora e compassiva, que talvez para muitos colida com paradigmas muito arraigados em nossa cultura.

Primeiramente, o que é um vício? É um comportamento o qual a pessoa temporariamente sente prazer, alívio ou ansia por  fazer-lo, porém a sua continuidade traz consequências negativas, tornando-se assim escravo do hábito.

E podemos, ainda, perguntar : como um hábito se torna um vício? Por um mecanismo de cópia. Diversamente do que muitos defendem, ser o vicio uma doença mental com 50% de chance de ser gerada por questões genéticas, vício não é uma doença mental e genética tem pouco a ver com isso. Quando olhamos um vicio de perto, precisamos primeiramente questionar: o que gostamos nele? Que bem obtemos ao pratica-lo? De modo geral são os seguintes benefícios:

 

                                                    Prazer        Conforto        Segurança        Proteção      Regular emoções      Sentir-se amado

 

O que há de errado com estes benefícios? Quem não os quer? Todos são qualidades humanas e  desejos perfeitamente normais . A questão vira então: por que precisamos dessa proteção/segurança/conforto/prazer? Qual é o vazio na vida que precisou ser preenchido por um comportamento aditivo? Por que não conseguimos nos conectar com estas sensações de outra forma? Logo,   é um mecanismo  de cópia, cuja origem está na nossa infância, quando nós não desenvolvemos estas qualidades nos nossos relacionamentos íntimos. Um grande vazio se desenvolve.  Todo vicio se desenvolve em cima de um sofrimento.

A heroína e morfina são opioides analgésicos mais fortes que existem,  aliviam dores não somente físicas, mas também emocionais. Em verdade, o mesmo centro cerebral que reconhece uma dor física é  ativado quando sofremos uma dor de fundo emocional. Uma rejeição emocional ativa nosso cérebro da mesma forma que uma facada em nosso corpo. Assim, estas substancias aliviam dores. Cocaína, por sua vez,  é um anestésico local, da mesma forma que o álcool. Ou seja um vício é sempre um tentativa de escapar de dor.

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http://sha-1.deviantart.com/art/In-my-infinite-sadness-179783360

 

Então a pergunta que devemos fazer não é o por que do vício, mas o por que da dor. E se queremos saber sobre a dor dos que nos cercam, precisamos olhar para vida deles, não para seus genes.

É verdade que nossos circuitos cerebrais estão envolvidos em um vício,  mas o que cobre o desenvolvimento destes circuitos é a interação  com ambiente primário. A  arquitetura do cérebro, a conexão dos circuitos cerebrais (circuitos de dor, de dopamina, circuitos de estress) se desenvolve na interação com o ambiente. E um dos maiores moduladores ambientais dos nossos circuitos são as interações que temos quando criança. Quando uma criança é ferida  ou emocionalmente abusada seus circuitos cerebrais são mal formados. É neste contexto que se cria um vicio.

As crianças não tem capacidade de regular as emoções.  Eles precisam de pessoas emocionalmente presentes para isso.Um trauma pode ser  originado não necessariamente porque os pais infligiram  maus tratos, mas por simplesmente não terem conseguido se conectar com seus filhos. Não é só por terem acontecido coisas ruim, mas também por não terem acontecido coisas boas.  Isso prejudica a capacidade de auto-regulação e ai entra a postura aditiva para tentar implementar este processo.

Apesar desse fato, ainda insistimos em tratar toda a questão como se as substancias fossem viciantes, criando políticas públicas de saúde e criminais ineficientes e que agravam ainda mais o quadro.  Não são as substâncias que são viciantes, a despeito de que podem trazer malefícios. Álcool não vicia, por que se assim  fosse, todo mundo que já bebeu um dia teria se tornado alcoólatra, aquele que tomou morfina para dor, viciado, o que não é verdade. Mesmo o crack que todos proclamam seu poder altamente viciante, muitos o fumaram algumas vezes e não se viciaram.  No vicio em sexo, a guisa de exemplo, não há  vício no sexo em si, mas sim em um certo estado cerebral que é alcançando com a atividade sexual, muitas vezes se sentir amado, desejado, acolhido. Ainda sim, focamos em procurar mudanças cerebrais causadas pelas substâncias e comportamentos.

Se olharmos a fisiologia de uma adicção,  usando novamente como exemplo o ópio, possuímos receptores químicos para ele, possuímos moléculas em nossas células que podem receber as moléculas de ópio. A razão de existirem receptores em nossos cérebros não é para que possamos usar heroína, mas porque nós mesmos possuímos o nosso sistema de ópio interno, que são as endorfinas. A palavra endorfina significa “ endogin morphine like substances”- substancias similares a morfina endógena.

E porque temos este sistema? Nossa vida seria impossível sem ele. Primeiramente, no alivio de dores (físicas e emocionais).No efeito  placebo, não imaginamos o alívio, ele de fato ocorre. Cerca de 25% das pessoas que tomam uma pílula neutra tem o mesmo efeito de darmos uma pílula com 5% de morfina. Por que? Pois ao acreditarmos que estamos sendo cuidados, nosso corpo libera naturalmente endorfinas.

Também temos o sentimento de prazer e recompensa,  sem endorfinas não temos relações, não temos alegria. Imaginem uma vida assim? E o mais essencial de todos os papeis da endorfina: amor.  Elas facilitam as relações intimas entre pais e filhos. Uma criança que tenha o sistema de endorfina suprimido não chora,  não grita por sua mãe. O que isso significa? Que esta criança esta morta, por que o senso de amor é senso de sobrevivência.

Peguemos pessoas que não receberam o amor que precisavam, sensação de segurança, confiança, carinho, tiveram pais  indisponíveis emocionalmente, estressados, deprimidos, ansiosos, traumatizados.Os circuitos daquelas não se desenvolvem corretamente.Esses circuitos  são essenciais para sobrevivência.  Logo para o adicto  a droga ou o comportamento -o vício -é uma questão de sobrevivência . Um mecanismo de adaptação. Todo vicio também é uma forma de automedicação. Medicamos depressão com cocaína (pois eleva seretonina tal qual o prozac) sindrome do stress pós traumático com ópio, ansiedade social com álcool e maconha e assim por diante.

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Quer seja do ponto de vista psicológico, da dor física, da dor emocional e também partindo o ponto de vista da fisiologia do cérebro, tudo tem por gênese experiências afetivas. Vícios em drogas ditas pesadas geralmente estão envolvidos com episódios de abusos muito intensos, sejam sexuais, abandono, violência física,  negligência, forte coação psicológica, dentre outros. Algo que foi experimentado de forma intensa e atroz pelo individuo.

Um estudo feito na Califórnia em grande escala ( ACE studies – adverse childhood experiencies) * concluiu que,  aqueles que sofreram abusos emocionais, físicos e sexuais, pais negligentes, viciados em drogas, violência doméstica,  doença severa na família, pais presos; para cada uma destas experiências infantis adversas há um aumento  exponencial na possibilidade de se tornarem adictos. O aumento é da casa de 460% se comparado a crianças que não passaram por essas espécies de eventos traumáticos.

E o que nós, sociedade, fazemos com estas pessoas? Ou rotulamo-os como portadores de uma doença mental ou simplesmente dizemos que eles fizeram uma escolha, uma má escolha que não aprovamos e os punimos . E contra quem estamos fazendo isso? Contra pessoas que foram abusadas em primeiro lugar. Boa parte da população carcerária é feita de crianças traumatizadas, que se tornaram viciados para poderem modular suas dores. Logo, punimos uns aos outros por termos sido abusados e achamos isso civilizado.

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A escravidão do vicio não se da só por si mesma, também pela forma como é tratada pela sociedade.

Pode se dizer que os vícios simplesmente acontecem, como fatos.  Neste viés, a sua importância está no seu significado. Para nos fazer questionar sobre qual  forma vivemos nossa vida, para buscarmos nos reconectar com algo que perdemos. O ponto não é entender racionalmente o mundo, mas muda-lo.  Portanto, é de suma importância que compreendamos os motivos para que possamos  agir, ajudando com que existam menos abusados e abusadores.

Por que é tão difícil para nós olharmos com olhar suave e amoroso para as pessoas auto-destrutivas? Por que é tão difícil aceitarmos? A falta de compaixão é porque fechamos nossos corações. E fizemos isso para nos proteger da dor. Ficamos muito vulneráveis quando passamos a nos importar com as pessoas. Pois sofremos. É mais fácil olhar alguém portador de uma adicção como alguém errado e ruim, do que olhar com amorosidade, pois para ver assim precisamos estar vulneráveis logo, podemos ser feridos.

O individuo acometido por uma adicção não é um viciado. Este termo tem uma conotação reducionista e muito infeliz.  Não é uma questão de ser. Não se é viciado. Como explicado no incio dessas considerações,  vicio é um comportamento adotado para diminuir uma dor, logo é uma atitude adotada. Isso faz toda a diferença na hora de vermos a situação com olhos compassivos e não maniqueístas.

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E se não usássemos a palavra viciado nunca mais? Que ela fosse abolida, e  passássemos a nos referir a estes casos como se tratarem de pessoas que sofreram tanto que adotaram um comportamento para aliviarem a dor?

Outro ponto bastante importante é que o vicio não é uma questão somente daquele que o pratica, sim de sua família. Essa pessoa personifica uma disfunção familiar que vem a gerações.Indivíduos pertencentes a uma reserva nativa indígena no Canadá, que possui um alto índice de adicção, perfazem 30% da população carcerária local. Foram traumatizados gerações apos gerações, genocídio, roubo de filhos, abusados sexualmente, suas crenças espirituais criminalizadas. Essas pessoas traumatizam seus filhos, que traumatizam a próxima geração e assim por diante. Logo quando encontramos um vicio na família, ao invés de querermos consertar aquela pessoa imediatamente, é importante agradeça-la por manifestar um comportamento, uma dificuldade relacional  que vem sendo arrastada pela família por gerações. E que sempre revela algo sobre nosso relacionamento com esta pessoa também. É uma benção para todo o sistema familiar  se curar, não só aquele indivíduo.

Como se recuperar de um vício?  Recuperar é conseguir ter algo de volta. Logo, eximir-se do uso/ comportamento  não é recuperação. É abstinência, o que não é ruim, mas não é recuperação.  Existe uma planta chamada eboga, que quando administrada em usuário de heroína, que experimentaria dores horríveis ao parar o consumo, não apresentam nenhum sintoma de abstinência, e por meses a pessoa fica sem desejo pela substancia. A pessoa se recuperou? Deu um grande e precioso passo em sua caminhada, mas ainda não. Por que? Voltamos a pergunta: Por que da dor? Todo processo de vicio foi para anestesiar dores,  e quando retiramos o anestésico, o fluxo da dor é restaurado e precisa ser acompanhado e monitorado. Recuperar é nos encontrarmos de novo, recuperar é encontrar algo que nunca foi destruído.

Sentir e acolher é o caminho a ser trilhado nesse processo. Uma pessoa que consumia álcool de forma compulsiva vê um copo de cerveja e sente um enorme desejo em bebe-lo, é algo perfeitamente natural, não há problema de fato nisso. É ao se permitir de forma compassiva se conectar com a sensação física da ânsia pela bebida e não  entrar em um processo de negação e bloqueio, leia-se, trazer à consciência a experiência,  que a recuperação vai se operando.

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Conheça-te a ti mesmo.

O livro tibetano do viver e morrer  diz, em síntese: nunca corra da sua dor, pois isso só cria mais sofrimento. Por conseguinte, precisamos ajudar as pessoas a enfrentarem suas dores.  Só na presença da compaixão as pessoas se permitem a ver a verdade. Então somente sob os olhos compassivos que podemos encarar nossas dores.

Numa dimensão mais ampla,  um vicio pode ser um convite maravilhoso para nos tornamos quem realmente somos.  O filosofo francês Blaise Pascal disse que há um em todo homem um vazio na forma de Deus. Quando perdemos a conexão com esse coisa maior, com a transcendência -independente de crenças-  sentimos um grande vazio.  Todos os problemas são psicológicos e todas as soluções espirituais, logo a conexão precisa ser feita.

Assim, recuperar-se é adquirir a capacidade de nos regularmos emocionalmente.  Nós não podemos proteger-nos da dor. Dor faz parte da vida.Muitos  como grandes mestres  com alto grau de consciência podem conseguir isso, mas para a maioria de nós isso não acontecerá. Recuperação  é fazermos por nós mesmo aquilo que nossos relacionamentos íntimos que nos marcaram não puderam fazer por nós, independente do motivo, que é estar com nossa dor,honrá-la e re-significa-la.        

 

 

 

Com amor,

Débora

www.acestudy.org/

 

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Comentários
  • Comentário de Solange Trevisan zc — 17/05/2016 — 9:55

    Com mais amor ainda, eu te agradeço Débora.
    Texto fantástico, esclarecedor e humanista. Não sou da área médica, sou apenas “uma mera mortal”, e achei sua abordagem sobre o tema simplesmente brilhante.
    Faço parte de uma terapia de grupo que estuda / auxilia / busca recuperação de pessoas com uma “doença” pouco conhecida – “Co-dependência” (Pessoas que convivem com pessoas adictas (dependentes em alguma coisa, que os destroem física e socialmente). A Co-dependência nada mais é do que pessoas que abandonam suas vidas para “viver” e “controlar/cuidar” a vida do outro, seja esse outro um dependente químico, um doente mental ou social. Em resumo, a “droga” do Co-dependente é o adicto.
    Dizemos sempre neste grupo, que a “dependência” ou “co-dependência” é a pontinha do iceberg e que debaixo dele há muita história pra contar. O legal é que você explanou tudo isso muito bem.

    Parabéns e obrigada pela luz disseminada.

    PS.: Gostaria de saber se você autoriza a leitura deste texto no meu grupo?

    Abraços.

  • Comentário de Débora Quinaud — 18/05/2016 — 17:56

    Boa noite querida Solange! Será uma HONRA você usar meu texto para auxiliar no seu lindo trabalho! A temática da codependência é MUITO importante, pois o foco muitas vezes da questão fica somente sobre sujeito ativo do comportamento adictivo, e as pessoas que sofrem consequencias diretas e que também fazem parte do “quadro”, não recebem o devido suporte, sendo que muitas vezes as dificuldades dos codependentes fomentam ainda mais o adicto. Esse enfoque sistemico com certeza auxilia e humaniza ainda mais os cuidados necessarios nestas circunstâncias. Fico muio feliz pelo teu comentário, que sempre enriquece!Grande abraço e muita luz para você e teu grupo! No que eu puder ajudar, estamos ai! _/\_

  • Comentário de Isaac — 23/08/2016 — 9:56

    Débora, eu gostaria que escrevesses uma materia sobre, como superar vicio em pornografia e masturbação.
    Estou agurdando pela resposta,
    obrigado.

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